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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Luis Gadelha - "Superfula" (2014)

Superfula por Luiz Gadelha
Foto: Pedro Andrade
Fazer um disco em casa parece uma tendência de uns tempos pra cá, com a facilidade que os músicos começaram a ter de montar, com alguns equipamentos, seu próprio estúdio de gravação. 

Fazer um disco em casa usando apenas um notebook sem estúdio e sequer um microfone...é loucura! Foi essa loucura meu primeiro impulso, uma vontade de me desafiar e me ver diante de um desconforto e de um risco.

Usando apenas um programa de samplers (trechos de sons) de instrumentos, comecei a organizar um repertório e a compor para essa experimentação. Não sou um leigo em gravação e produção musical, mas não sou técnico e não tenho conhecimentos para desenvolver um disco sozinho com arranjos que saem de dentro de um programa de computador. 

Era isso que eu queria. Não saber e fazer não sabendo. Portanto, me joguei na escuridão e fui escavacando essa ideia. O desafio maior era gravar a voz, pois meu grande equipamento comportava apenas um microfone interno do notebook... aqueles que a gente usa pra falar na web cam. E muitos foram os testes. Soltei dois singles na internet ainda em caráter de experimentação.

A idéia de ser um disco foi ficando mais forte e, em volta dela, o desejo pretensioso de lançar algo que rompesse com os padrões de gravação de disco que existem, até mesmo os discos gravados em estúdio caseiros. Os músicos gravam seus instrumentos e o vocalista põe sua voz logo depois e tudo vai pra uma mixagem pra deixar bem encaixadinho, seguido de uma masterização que faz todo o trabalho ficar poderoso, gordo, forte! É como o reboco e pintura da casa depois de construída. 


Não é uma crítica aos estúdios, aos produtores musicais, aos discos e ao músicos. É uma vontade de experimentar, ver como seria recebido e, quem sabe, até sentir que eu estaria produzindo alguma arte (dentro do meu conceito que arte é aquilo que rompe com algo ou alguma coisa que é padrão, que é linear).
Me veio agora um poema do poeta e letrista Antônio Cícero, que Marina Lima recitou em seu disco “O Chamado” (1993): “Não quero só ficar bem na foto, quero dizer a que vim. Mesmo que isso me custe revelar coisas que não gosto em mim (...)”. 

Não estou na contra mão. Neste disco contém sons, vozes, é mixado e masterizado... mas por mim, que me cerquei apenas de intuição para realizar todas essas atividades.

Em algum momento contei com alguns direcionamentos do músico Henrique Geladeira, técnico de gravação. As composições foram chegando aos poucos, de acordo com os acontecimentos em minha volta. 

As letras se encontram num único vértice: o amor! A falta ou a presença dele. O romântico e o fraternal. O que critica e também suavisa. O que questiona, mas também aceita. O que sonha, mas também realiza. Resgatei uma canção antiga e inédita em parceria com Simona Talma, “Cidade sem inverno”, e inauguro uma nova parceria com Thais Mendes em “Capitão”.
“Supérflua”é a canção que abre o disco e compus para esse fim. Ela é a voz da música. É a personificação da música questionando sobre si mesma e o seu papel no mundo. “O que devem fazer por aí comigo e em meu nome?” - questiona. 
Ela simplesmente quer ser útil e quer ser lúdica. Os arranjos foram pensados para os recursos que eu tinha, pensando no eletrônico, no acústico desse eletrônico e no econômico, no simples.

Me inspirei em alguns discos de Marina Lima feitos dessa mesma forma, incluindo a construção de sua composição. Outro elemento que me inspirou foi o funk carioca. Não exatamente o estilo, mas a cultura da produção desse som que sai de uma batida, com pouco elemento harmônico (que fazem acordes) e uma voz mandando o recado, que é o mais importante.

Algumas vezes, durante o processo, percebi que o que resultava dessa experimentação se aproximava muito do karaokê. Gostei dessa proximidade. São músicas de sucesso numa caixa que qualquer pessoa pode cantar, se divertir, soltar a voz sem nenhum julgamento... Só colocar uma ficha. E quase chegando ao fim dessa jornada, completado arranjos e repertório, peço a Simona Talma pra me ajudar a organizar a ordem da músicas dentro do CD, pra que ideia fique redonda dentro dos temas e tudo seja dito de forma coerente. Claro que ela realizou de bom grado, ouvindo música por música, mas fez uma observação quanto à voz do disco.

(Luiz Gadelha - Bússola [Projeto Quarto])

O processo não havia me ajudado a deixar o canto de uma forma tão legal, precisando rever essa questão. Foi então que fiz o caminho de volta, embora preocupado com o conceito de propor uma experiência toda feita em casa. Mas, concordando com os pontos de Simona, busquei Toni Gregório, que conhece bastante de música e tem um estúdio em casa para podermos recolocar todas as vozes. Toni topou na hora e foi importantíssimo, embarcando com seu ouvido primoroso e sua mente aberta pra música, deixando essa nova voz bem mais pronta e sem fugir do conceito do disco.


“Supérflua” é um projeto de um músico só, mas que precisou de parceiros essenciais pra que nascesse: O site “Tenho Mais Discos Que Amigos”, que topou às cegas lançar a audição em primeira mão do disco; Simona Talma, que contribui em composição e em sensibilidade para reconhecer o que poderia melhorar; Thais Mendes, com seu incentivo e com seu “Capitão” trazendo ludicidade pra esse mar; Pedro Andrade, com seu clique nas fotos de divulgação e deixando o conceito bem mais formatado; Henrique Geladeira e Toni Gregório pela competência técnica e musical.


Fecho tudo isso com uma capa que produzi inspirada no último filme que vi no cinema, o brasileiro “Tatuagem”. O longa que conseguiu quebrar padrões em aspectos artísticos e provocar o espectador nos tempos de hoje, quando tudo parece ter sido visitado e questionado, deixou interrogações em mim. Quando a arte se torna algo imprescindível? Supérflua ou indispensável? 






BAIXE O CD CLICANDO NA CAPA

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